A sede que só Deus pode saciar
O Salmo 63 nasce no deserto. Davi está cercado por escassez, insegurança e ameaças. O cenário exterior era uma representação perfeita daquilo que uma alma exausta pode sentir: terra seca, cansada e sem água.
Mas existe algo extraordinário nas primeiras palavras de Davi. Antes de falar sobre aquilo que lhe falta, ele declara aquilo que possui:
“Ó Deus, tu és o meu Deus.”
Antes de falar do deserto, ele fala de Deus.
Antes de falar da sede, ele declara sua identidade.
Antes de pedir alguma coisa, ele reconhece quem o Senhor é.
Davi estava com sede fisicamente, mas compreendeu que existia uma sede ainda mais profunda. O corpo precisava de água, mas a alma precisava da presença de Deus.
É como se ele dissesse: “Existem muitas coisas das quais preciso neste momento, mas existe uma necessidade maior do que todas elas: eu preciso de Ti.”
Essa é uma das grandes revelações do Salmo 63: Deus não apenas possui aquilo de que precisamos; Ele próprio é aquilo de que nossa alma mais precisa.
Podemos precisar de respostas, provisão, cura, descanso, direção, mudanças e livramentos. Todas essas coisas são legítimas. Entretanto, nenhuma delas consegue ocupar o lugar que pertence exclusivamente à presença de Deus.
Por isso, Davi não permite que o deserto redefina sua visão do Senhor.
Ele não pensa: “Minha vida está difícil, portanto Deus deixou de ser bom.”
Pelo contrário. Ele parte daquilo que sabe sobre Deus para interpretar aquilo que está vivendo.
As circunstâncias não definem quem Deus é. Quem Deus é redefine a maneira como enxergamos as circunstâncias.
O deserto pode dizer: “Não há recursos.”
Deus continua dizendo: “Eu sou a sua fonte.”
O deserto pode dizer: “Você está sozinho.”
Deus continua dizendo: “Eu estou com você.”
O deserto pode dizer: “Não existe saída.”
Deus continua sendo Aquele que abre caminhos onde nossos olhos ainda não conseguem enxergar.
Davi não nega a realidade do deserto. Ele apenas se recusa a permitir que o deserto tenha a palavra final.
Todos nós atravessaremos desertos em algum momento da vida.
Existem desertos familiares, emocionais, financeiros, ministeriais e espirituais. Existem períodos em que continuamos realizando nossas responsabilidades, conversando, trabalhando e servindo, mas interiormente sentimos que alguma coisa secou.
Podemos estar de pé por fora e exaustos por dentro.
E talvez uma das condições mais difíceis seja justamente a exaustão. Quando estamos apenas cansados, ainda conseguimos dizer: “Estou cansado”. Mas existem momentos em que a alma está tão sobrecarregada que faltam até palavras para explicar o que estamos sentindo.
É exatamente nesse lugar que o Salmo 63 nos ensina para onde olhar.
Davi diz:
“Certamente eu te contemplei no santuário e vi o teu poder e a tua glória.”
O tratamento de Davi para uma alma exausta foi a contemplação.
Ele decidiu tirar os olhos, por alguns momentos, daquilo que estava faltando e colocá-los sobre Aquele que nunca lhe faltaria.
Contemplar Deus é lembrar deliberadamente quem Ele é.
É recordar Sua fidelidade quando as circunstâncias parecem contradizê-la.
É adorar quando ainda não recebemos a resposta.
É permanecer diante Dele quando não entendemos o processo.
É permitir que a grandeza de Deus ocupe novamente um espaço maior em nossos pensamentos do que o tamanho dos nossos problemas.
Talvez alguns desertos tenham justamente essa capacidade: silenciar tantos outros estímulos até que nossos olhos voltem novamente para Deus.
O deserto não significa ausência de Deus.
Às vezes, é justamente nele que conhecemos aspectos do Senhor que nunca conheceríamos em tempos de abundância.
Israel conheceu a provisão diária de Deus no deserto.
Moisés viu água sair da rocha.
Elias experimentou provisão em tempos de escassez.
Jesus venceu a tentação no deserto sustentado pela Palavra.
Existem revelações sobre a suficiência de Deus que somente determinados processos conseguem nos ensinar.
Deus não desperdiça desertos.
Aquilo que hoje parece apenas um lugar de escassez pode se transformar em um lugar de encontro, amadurecimento e revelação.
Talvez hoje existam áreas da nossa vida que se pareçam exatamente com a descrição de Davi:
“Terra seca, exausta e sem água.”
Talvez estejamos esperando uma resposta há muito tempo. Talvez algumas circunstâncias tenham consumido nossas forças. Talvez tenhamos chegado ao ponto de dizer: “Senhor, eu não sei quanto tempo ainda consigo suportar.”
O Salmo 63 nos convida a fazer algo diferente.
Em vez de começarmos pela circunstância, começamos por Deus:
“Tu és o meu Deus.”
Essa declaração muda o ponto de partida.
Não significa negar a dor. Não significa fingir que o deserto não existe. Significa decidir que nossa compreensão sobre Deus não será determinada pelo cenário que estamos atravessando.
Davi chega então a uma das declarações mais extraordinárias desse Salmo:
“O teu amor leal é melhor do que a vida.”
Que declaração!
Davi descobriu que poderia perder muitas coisas sem perder aquilo que era essencial: o amor e a presença de Deus.
Quando nossa alma compreende isso, o deserto deixa de ser apenas o lugar daquilo que falta e pode se transformar no lugar onde descobrimos Aquele que basta.
Talvez estejamos pedindo para Deus mudar o cenário, enquanto Ele também deseja revelar Sua presença dentro dele.
Talvez estejamos procurando água ao nosso redor quando Deus está chamando nossa alma para beber mais profundamente da Sua presença.
E existe uma promessa silenciosa nesse Salmo.
Davi começa dizendo:
“A minha alma tem sede de ti.”
Depois, no versículo 5, declara:
“A minha alma ficará satisfeita como quando tem rico banquete.”
A alma que começou sedenta termina satisfeita.
O deserto ainda estava ao redor de Davi, mas alguma coisa já havia mudado dentro dele.
Porque quando encontramos Deus no meio do deserto, podemos ainda não ter recebido tudo aquilo que pedimos, mas descobrimos que temos Aquele de quem mais precisamos.
Por isso, se hoje a nossa alma estiver cansada, seca ou exausta, podemos fazer a oração de Davi:
“Tu és o meu Deus. Eu te busco intensamente.”
Que o deserto não determine nossa identidade.
Que a falta não determine nossa fé.
Que as circunstâncias não determinem nossa visão de Deus.
O ambiente pode mudar, mas Deus não mudou.
E, mesmo quando não conseguimos enxergar água ao nosso redor, podemos continuar dizendo:
“A minha alma apega-se a ti; a tua mão direita me sustém.”
Senhor nosso Deus, nós te buscamos porque reconhecemos que nossa alma precisa de Ti mais do que de qualquer outra coisa. Existem momentos em que nos sentimos como terra seca, exausta e sem água; momentos em que as lutas consomem nossas forças e não sabemos como continuar. Mas hoje escolhemos declarar, como Davi: Tu és o nosso Deus.
Desperta novamente em nós sede pela Tua presença. Que não busquemos apenas aquilo que Tu podes nos dar, mas que desejemos profundamente estar contigo. Ensina-nos a contemplar Tua beleza, Teu poder, Tua glória e Tua fidelidade mesmo nos dias difíceis.
Transforma nossos desertos em lugares de encontro contigo. E enquanto esperamos pelas respostas, pela provisão e pelo livramento, satisfaz nossa alma com Tua presença.
Nós nos apegamos a Ti, Senhor. Sustenta-nos, renova-nos e faz-nos descobrir, cada dia mais, que Teu amor é melhor do que a própria vida e Tua presença é suficiente para nossa alma.
Em nome de Jesus, amém.



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