Chamados antes de nos sentirmos prontos
“Eu o conheci antes de formá-lo no ventre de sua mãe; antes de você nascer, eu o separei e o nomeei para ser meu profeta às nações.”
Jeremias 1:5–10
Jeremias recebe seu chamado em um momento em que não se considerava preparado para aquilo que Deus estava colocando diante dele. Antes que Jeremias pudesse apresentar suas limitações, porém, Deus começa revelando uma verdade muito maior do que suas inseguranças:
“Eu o conheci antes de formá-lo no ventre de sua mãe.”
O chamado de Jeremias não começou quando ele percebeu que tinha capacidade. Começou no conhecimento e no propósito de Deus.
O verbo “conhecer”, nesse contexto, comunica muito mais do que simplesmente possuir informações sobre alguém. Na linguagem bíblica, conhecer também envolve relacionamento, escolha e propósito. Deus estava dizendo a Jeremias: “Sua existência não é desconhecida para mim. Sua história não começou fora dos meus olhos.”
Depois, Deus declara:
“Antes de você nascer, eu o separei.”
Separar significa consagrar, reservar para uma finalidade. Jeremias ainda nem havia nascido, mas Deus já conhecia o propósito que cumpriria por meio de sua vida.
Isso não significa que Jeremias teria uma trajetória fácil. Pelo contrário. Seu ministério seria extremamente difícil. Ele anunciaria mensagens que muitas pessoas não desejariam ouvir, enfrentaria rejeição, perseguição, solidão e oposição.
O chamado de Deus não eliminaria as dificuldades. A presença de Deus sustentaria Jeremias dentro delas.
Quando Jeremias responde:
“Ó Soberano Senhor, não sou capaz de falar em teu nome! Sou jovem demais para isso!”
Ele olha para si mesmo e encontra razões para não conseguir. Deus, porém, não começa discutindo a capacidade de Jeremias. Ele muda o centro da conversa.
Jeremias dizia: “Eu não consigo.”
Deus responde: “Você irá aonde eu o enviar.”
Jeremias dizia: “Eu não sei falar.”
Deus responde: “Você dirá o que eu lhe ordenar.”
Jeremias poderia pensar: “As pessoas podem me rejeitar.”
Deus responde: “Não tenha medo do povo, pois estarei com você.”
Aqui encontramos uma verdade poderosa: Deus não estava pedindo que Jeremias confiasse em si mesmo; estava ensinando Jeremias a confiar naquele que o estava enviando.
Depois disso, o Senhor toca a boca do profeta e declara:
“Coloquei minhas palavras em sua boca.”
Aquilo que Jeremias considerava sua maior limitação — sua incapacidade de falar — torna-se justamente o lugar onde Deus manifesta sua provisão.
Jeremias não precisaria produzir sozinho a mensagem. Ele seria apenas o instrumento.
E então Deus apresenta a dimensão de sua missão:
“Para arrancar e derrubar, para destruir e arrasar, para edificar e plantar.”
Antes de haver edificação, algumas estruturas precisariam cair. Antes de plantar algo novo, seria necessário arrancar aquilo que estava corrompido.
Esse princípio atravessa toda a mensagem profética de Jeremias: Deus confrontaria o pecado e a falsa segurança de Judá, mas seu objetivo final não era simplesmente destruir. Havia também restauração, reconstrução e esperança.
O Deus que derruba aquilo que nos afasta dele também é o Deus que edifica e planta novamente.
Muitas vezes Deus coloca diante de nós algo maior do que aquilo que acreditamos conseguir realizar.
E nossa primeira reação pode ser parecida com a de Jeremias:
“Eu não sei.”
“Eu não consigo.”
“Não tenho experiência suficiente.”
“Existem pessoas melhores do que eu.”
“Tenho muitas limitações.”
“Talvez eu não esteja preparado.”
O problema começa quando transformamos nossas limitações em argumentos maiores do que a palavra de Deus.
Existe uma diferença entre reconhecer nossas fragilidades e permitir que elas determinem aquilo que obedeceremos.
Jeremias realmente era jovem e realmente não se sentia preparado. Mas nenhuma dessas realidades anulava aquilo que Deus havia determinado.
Há momentos em que esperamos sentir confiança para então obedecer. Mas, muitas vezes, a confiança amadurece enquanto caminhamos em obediência.
Deus não disse: “Jeremias, quando você se sentir preparado, vá.”
Ele disse: “Você irá aonde eu o enviar.”
Isso muda tudo.
Nossa segurança não está em saber exatamente como cada etapa acontecerá. Está em saber quem nos enviou e quem estará conosco durante o caminho.
Talvez Deus esteja conduzindo você para uma responsabilidade que parece grande demais.
Talvez seja um ministério.
Uma decisão.
Um novo começo.
Uma conversa difícil.
Um projeto.
Uma missão que você não imaginava receber.
E talvez, olhando apenas para você, realmente pareça impossível.
Mas o texto nos ensina que a pergunta principal não é: “Eu sou suficiente para isso?”
A pergunta é: “Foi Deus quem me enviou?”
Porque aquilo que nasce apenas da nossa ambição depende da nossa força.
Mas aquilo que nasce da vontade de Deus pode ser realizado pela graça, pela direção e pela capacitação que vêm dele.
Existem momentos em que não estamos fugindo da vontade de Deus por rebeldia, mas por insegurança.
O medo pode se apresentar disfarçado de humildade:
“Não sou capaz.”
“Não sou a pessoa certa.”
“Não sei falar.”
“Não tenho estrutura.”
“Não tenho tudo que precisaria.”
Mas precisamos discernir quando essas frases deixam de ser apenas reconhecimento de limitações e começam a se tornar barreiras para a obediência.
Jeremias olhou para aquilo que lhe faltava.
Deus o fez olhar para aquilo que lhe seria dado.
Talvez você esteja olhando excessivamente para aquilo que não possui e pouco para aquele que chamou você.
Deus conhece nossas limitações antes mesmo de nos chamar.
Ele não descobre nossas fraquezas depois que diz “vá”.
Quando chamou Jeremias, Deus já sabia sua idade, sua personalidade, seus medos, sua inexperiência e suas dificuldades. E ainda assim o chamou.
Isso significa que nossas fraquezas não surpreendem Deus.
Há também uma verdade profunda nas palavras:
“Não tenha medo do povo.”
Muitos chamados são paralisados não pela falta de capacidade, mas pelo medo da reação das pessoas.
Medo de críticas.
Medo de rejeição.
Medo de não sermos compreendidos.
Medo de decepcionar.
Medo de falhar diante dos outros.
Mas quem vive dependendo excessivamente da aprovação humana terá dificuldade para obedecer quando a vontade de Deus contrariar a expectativa das pessoas.
Jeremias precisaria aprender que a presença de Deus seria mais importante do que a aprovação do povo.
E talvez essa seja uma palavra necessária para nós também.
Nem todos compreenderão aquilo que Deus está fazendo em nossa vida.
Nem todos reconhecerão nosso chamado.
Nem todos apoiarão nossas decisões.
Mas aquilo que sustenta um chamado verdadeiro não é o aplauso das pessoas.
É a presença daquele que declarou:
“Eu estarei com você.”
Por isso, talvez hoje Deus esteja nos convidando a parar de repetir apenas: “Eu não posso.”
E começar a perguntar: “Senhor, se és tu quem está me enviando, qual é o próximo passo de obediência?”
Não precisamos conhecer todo o caminho.
Precisamos obedecer ao próximo passo.
Porque Deus continua sendo aquele que chama pessoas imperfeitas, toca aquilo que parece insuficiente e coloca sua graça exatamente no lugar em que reconhecemos nossa limitação.
Senhor, muitas vezes olhamos para nossas limitações e pensamos que não conseguiremos cumprir aquilo que colocaste diante de nós. Ensina-nos a confiar mais na tua presença do que em nossa própria capacidade. Livra-nos do medo das pessoas e dá-nos coragem para obedecer à tua voz. Coloca em nós as palavras certas e conduz nossos passos para cumprirmos fielmente o propósito que tens para nossa vida. Em nome de Jesus, amém.
“Quando Deus nos chama, nossa segurança não está em sermos suficientes, mas em saber que aquele que nos enviou estará conosco.”



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