Orações são encontro de corações



“Escuta, Senhor, as minhas palavras, considera o meu gemer. Atenta para o meu grito de socorro, meu Rei e meu Deus, pois é a ti que imploro. De manhã ouves, Senhor, o meu clamor; de manhã te apresento a minha oração e aguardo com esperança.”
Salmo 5:1-3


O Salmo 5 nos apresenta Davi em uma experiência profundamente humana: ele procura Deus em meio à aflição. Entretanto, há algo muito significativo na maneira como ele ora. Davi não pede apenas: “Escuta as minhas palavras”. Logo em seguida acrescenta: “considera o meu gemer”.

Existem dores que conseguimos explicar. Conseguimos dizer o que aconteceu, contar o que estamos sentindo e até organizar nossos pedidos diante de Deus. Mas existem momentos em que a dor é tão profunda que as palavras parecem insuficientes.

É justamente nesse lugar que o salmo nos revela uma verdade preciosa: Deus não precisa de uma oração perfeitamente formulada para compreender o nosso coração.

Ele ouve nossas palavras, mas também conhece aquilo que existe antes das palavras. Ele entende o suspiro, percebe o silêncio e conhece a lágrima. Ele compreende o gemido que ninguém mais consegue interpretar.

Essa verdade aparece de maneira ainda mais profunda em Romanos 8. Paulo descreve uma criação que geme por causa das consequências do pecado e diz que nós também gememos enquanto aguardamos a plena redenção. Mas então ele acrescenta algo extraordinário: quando não sabemos como orar, o próprio Espírito Santo intercede por nós com gemidos inexprimíveis (Romanos 8:26).
Isso significa que nossa fraqueza não interrompe nossa comunhão com Deus. Quando nossas palavras terminam, a atuação do Espírito Santo não termina.

Há momentos em que nossa oração será uma declaração de fé; em outros, talvez seja apenas um choro diante de Deus. Em ambos os casos, Ele continua ouvindo.

Davi ainda diz algo importante: “Meu Rei e meu Deus.”

Mesmo angustiado, ele não perdeu de vista quem Deus era. Seu sofrimento era real, mas Deus continuava sendo Rei. Seu coração estava aflito, mas Deus continuava sendo Deus.

Sua oração parecia um grito de socorro, mas ainda havia relacionamento: “meu Deus”.

A oração não é apenas a apresentação de pedidos. A oração é um encontro entre o nosso coração e o coração de Deus.

Talvez existam dias em que acordamos e já sentimos o peso das preocupações. Pensamos no futuro, pensamos em situações que gostaríamos de mudar. E talvez nem saibamos mais o que dizer a Deus, porque já repetimos a mesma oração muitas vezes. 

Tenho passado por um processo de espera até receber a cura física e por vários momentos me cansei de pedir sempre a mesma coisa, por alguns períodos me sentia como se o Senhor não estivesse me ouvindo, me sentia abandonada e esquecida. Mas quando me volto a palavra de Deus ela sempre me lembra que cada choro e cada oração não está sendo em vão, está produzindo em mim maior fé e intimidade com o Pai.

O Salmo 5 nos ensina que podemos continuar chegando diante dele.

Davi diz: “De manhã te apresento a minha oração e aguardo com esperança.”

Há duas atitudes aqui: apresentar e aguardar.

Apresentar significa colocar diante de Deus aquilo que carregamos.

Aguardar significa reconhecer que depois de orarmos há coisas que não estão mais em nossas mãos.

A fé não exige que tenhamos todas as respostas. Ela nos ensina a permanecer diante daquele que as possui.

E existe algo especialmente bonito na referência à manhã. Lamentações 3:22-23 declara que as misericórdias do Senhor se renovam a cada manhã.

Isso significa que podemos chegar diante de Deus todas as manhãs com nossas necessidades, porque todas as manhãs encontraremos nele misericórdia suficiente para aquele dia.

Jesus nunca prometeu que passaríamos pela vida sem aflições. Mas prometeu sua presença.

Não temos imunidade contra a dor. Temos, porém, a certeza de que nunca atravessamos a dor sozinhos.

Deus não observa nosso sofrimento de longe. Ele se aproxima. Ele sustenta. Ele consola. Ele acolhe nosso coração e, por meio do Espírito Santo, trabalha até mesmo naquele lugar onde nós já não conseguimos encontrar palavras.

Talvez você esteja vivendo uma estação em que explicar o que sente se tornou difícil. Você começa a orar e chora. Tenta falar e as palavras não chegam.

Existem sentimentos misturados, perguntas sem respostas e situações que parecem prolongadas demais. Não pense que sua oração fracassou porque você não conseguiu dizer tudo.

Seu silêncio diante de Deus também pode ser oração.

Seu gemido pode ser oração. Suas lágrimas podem chegar onde suas palavras não chegaram.

Davi nos mostra que não precisamos esconder nosso desespero para nos aproximarmos de Deus. Podemos dizer: “ouve o meu grito de socorro”.

A fé bíblica não é fingir que não estamos sofrendo. É sofrer sabendo para quem podemos correr.

Talvez hoje você não tenha uma longa oração.

Talvez consiga apenas dizer: “Senhor, eu preciso de Ti.”

Isso basta para começar.

E depois de colocar seu coração diante dele, faça como Davi: aguarde com esperança.

Não porque você conhece exatamente o que acontecerá, mas porque conhece aquele diante de quem colocou sua oração.

Há manhãs em que ainda não veremos a resposta, mas haverá misericórdia nova, haverá graça suficiente, haverá presença. E haverá um Deus que continua ouvindo não apenas aquilo que nossa boca consegue dizer, mas também aquilo que o nosso coração ainda não conseguiu transformar em palavras.

Senhor, há momentos em que não sabemos como expressar o que sentimos. Recebe nossas palavras, nossas lágrimas e até nossos silêncios. Espírito Santo, intercede por nós em nossa fraqueza. A cada manhã, ajuda-nos a colocar diante de Ti aquilo que pesa em nosso coração e a esperar com esperança, confiando em tua misericórdias e em tua presença. Em nome de Jesus, amém.

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