Por que eu preciso ter tudo sob controle?




Por que não saber o que vai acontecer me causa tanta angústia?

Em alguns casos, a necessidade de controle pode funcionar como uma tentativa de produzir segurança.

Se eu conseguir prever, talvez não seja surpreendido.

Se eu não organizar tudo, talvez nada dê errado.

Se as pessoas agirem como espero, talvez eu não me decepcione.

Se eu tiver todas as respostas, talvez eu não precise enfrentar a angústia do desconhecido.

Então o controle deixa de ser simplesmente um comportamento e começa a funcionar como uma espécie de proteção emocional contra a vulnerabilidade.

Só que existe um problema:

Quanto mais precisamos controlar para nos sentirmos seguros, menos conseguimos descansar diante daquilo que não podemos prever.


“De fato, acalmei e tranquilizei a minha alma.”
Salmo 131:2

 

O Salmo 131 é curto, mas apresenta uma imagem extremamente profunda.

Davi descreve sua alma como uma criança aquietada junto de sua mãe.

Não é a imagem de alguém que recebeu todas as respostas, é a imagem de alguém que aprendeu a permanecer seguro mesmo sem controlar tudo. A palavra de Deus nos ensina em Provérbios para confiarmos no Senhor de todo coração:


“Confie no Senhor de todo o coração e não se apoie em seu próprio entendimento.”
Provérbios 3:5

 

Existe aqui um confronto direto com uma das maiores dificuldades de quase todos nós: confiar quando não entendemos.

O Salmo 131 começa com uma declaração muito significativa:

Davi afirma que não está procurando ocupar-se com coisas grandes demais para ele. Isso não significa ausência de sonhos, capacidade ou responsabilidade, existe, porém, um reconhecimento de limites.

Há coisas que pertencem ao alcance humano e existem coisas que permanecem além da nossa compreensão.

Davi parece ter aprendido algo que muitas vezes levamos anos para compreender:

Nem tudo precisa estar resolvido para que a alma esteja em paz.

Depois ele diz: “Acalmei e tranquilizei a minha alma.”

Observe que o salmista não diz: 

“Minha vida finalmente ficou previsível.”

“Todas as minhas perguntas foram respondidas.”

“Agora sei exatamente o que acontecerá.”

O que mudou foi sua condição interior. Talvez tenhamos passado muito tempo tentando organizar o lado de fora na esperança de finalmente conseguir descansar por dentro. Mas Deus começa uma obra mais profunda:

Ele nos ensina a encontrar segurança nEle mesmo quando o lado de fora ainda contém incertezas.

A imagem da criança no colo é especialmente significativa, uma criança pequena não conhece o caminho, não sabe quanto tempo levará, não entende todas as decisões de quem a carrega, mas pode descansar porque sua segurança não está no conhecimento do caminho, e sim na presença de alguém em quem confia.

Essa é uma das expressões mais bonitas da dependência de Deus, fé não significa possuir todas as informações. Fé é continuar descansando no caráter de Deus quando faltam informações. É exatamente por isso que Provérbios 3:5 diz:

“Não se apoie em seu próprio entendimento.”

Existe uma parte de nós que gostaria de compreender primeiro e confiar depois, queremos saber: 

Como?

Quando?

Por quê?

E se não der certo?

O que acontecerá depois?

Mas existem momentos em que Deus não nos entrega o mapa completo. Ele nos convida a conhecê-lo suficientemente para caminhar sem possuir todas as respostas.

  • Talvez o controle esteja tentando proteger uma parte de você

Determinados comportamentos controladores podem funcionar como mecanismos de defesa. Quando determinadas experiências de insegurança são muito marcantes, algumas pessoas podem desenvolver formas rígidas de tentar evitar novamente aquela sensação de impotência.

É como se internamente existisse uma mensagem: “Nunca mais quero me sentir sem saída.”

Então nasce outra: “Preciso estar preparado para tudo.”

Talvez você tenha vivido situações em que as coisas mudavam inesperadamente. Talvez pessoas em quem confiava tenham falhado. Talvez tenha precisado amadurecer cedo. Talvez tenha aprendido que errar trazia consequências emocionais muito dolorosas ou tenha crescido sob cobranças excessivas. Talvez suas opiniões fossem constantemente invalidadas. Talvez tenha experimentado perdas que não conseguiu impedir.

Isso não significa que necessariamente exista um trauma por trás de todo comportamento controlador.

Mas significa que vale a pena refletir e se perguntar: O que meu controle está tentando evitar que eu sinta novamente?

O controle externo pode esconder um grande medo interno. Algumas pessoas tentam estabelecer ordem rígida ao redor porque internamente existe muita angústia diante da possibilidade de desorganização.

Quanto maior a sensação de caos interior, maior pode ser a tentativa de organizar tudo exteriormente como por exemplo: horários, pessoas, planos, decisões, conversas, resultados. Até mesmo a maneira como os outros deveriam agir.

O controle então funciona como uma armadura.

Enquanto tudo permanece dentro do esperado, existe sensação de segurança. Mas basta alguma coisa escapar do roteiro para a ansiedade aparecer.

Talvez por isso pequenas mudanças produzam reações tão intensas.

Não é apenas o plano que mudou, alguma coisa dentro da pessoa sentiu que perdeu segurança.

Sabe aquela voz interior que constantemente sentencia:

“Você deveria ter feito melhor.”

“Não pode cometer erros.”

“Isso não está suficientemente bom.”

“Você deveria ter previsto isso.”

“Não pode falhar.”

Quando essa cobrança interna é muito severa, ela pode transbordar para os relacionamentos. Quem não tolera os próprios erros pode encontrar grande dificuldade para tolerar os erros dos outros.

Quem exige perfeição de si pode começar a exigir previsibilidade de todos ao redor. E assim o controle deixa de ferir apenas quem controla e começa a atingir os relacionamentos.

Às vezes queremos que as pessoas pensem, escolham, respondam e ajam exatamente como esperamos e quando isso não acontece, ficamos frustrados. Mas o outro não é uma extensão de nós. Ele possui história, desejos, pensamentos, limitações e decisões próprias.

Parte do amadurecimento envolve aprender a suportar essa realidade:

Pessoas que amamos nem sempre farão aquilo que gostaríamos que fizessem.

E isso nos leva a uma cena muito interessante do Evangelho em Lucas 10:38-42, Marta está ocupada com muitos preparativos enquanto Maria permanece ouvindo Jesus. Marta então procura Jesus e, de certa maneira, tenta envolvê-lo em sua expectativa: “Manda que ela venha me ajudar.”

Jesus responde mostrando que Marta estava ansiosa e inquieta com muitas coisasO texto não transforma Marta numa vilã, Jesus percebe sua inquietação.

“Marta, Marta...”

Existe ternura nessa repetição, Ele não olha apenas para aquilo que Marta está fazendo, Ele alcança aquilo que está acontecendo dentro dela.

Talvez essa seja uma pergunta que Jesus também queira fazer ao nosso coração:

“Por que tantas coisas estão inquietando você?”

  • Quando o controle se torna uma ilusão de segurança

Existe algo doloroso que, em algum momento, precisamos admitir:

controle absoluto não existe.

Podemos construir planejamentos extremamente detalhados e ainda sermos surpreendidos. Podemos tentar prever a reação das pessoas e elas podem escolher diferente. Podemos imaginar todos os cenários possíveis e surgir algo que nunca consideramos.

E tentar eliminar completamente essa imprevisibilidade exige enorme energia emocional. A pessoa permanece analisando, antecipando, revisando, conferindo e imaginando possibilidades. Tentando impedir problemas antes mesmo de existirem e fica exausta.

A transformação começa quando começamos a compreender e falar persistentemente para nós mesmos: eu não preciso dominar tudo ao meu redor para estar seguro. Minha segurança não precisa nascer da previsibilidade das circunstâncias, porque posso aprender a encontrá-la na presença de Deus.

Talvez seja importante não perguntar apenas: “O que estou tentando controlar?”

Mas: “Por que preciso controlar isso?”

Pergunte a si mesmo diante de Deus: O que sinto quando alguma coisa foge do meu planejamento? 

Medo?

Raiva?

Impotência?

Insegurança?

Frustração?

O que temo que aconteça se eu não conseguir controlar determinada situação?

Existe alguma experiência da minha história em que fui surpreendido por algo doloroso e, desde então, tento prever tudo?

Tenho dificuldade de permitir que outras pessoas façam as coisas de maneira diferente da minha? Por quê?

Qual é a cobrança que existe dentro de mim quando erro?

E uma pergunta ainda mais profunda: Eu consigo permanecer seguro na presença de Deus quando ainda não sei o que acontecerá?

Essas perguntas não servem para produzir culpa, servem para iluminar lugares que talvez estejam escondidos. Porque aquilo que conseguimos nomear diante de Deus deixa de precisar governar nossa vida silenciosamente.

  • Nomeie o medo que existe atrás do controle

Quando sentir a necessidade intensa de controlar uma situação, não fique apenas no comportamento. Pergunte:

“Se isso não acontecer do jeito que espero, do que exatamente tenho medo?”

Talvez a resposta seja:

“Tenho medo de ser abandonado.”

“Tenho medo de falhar.”

“Tenho medo de passar novamente pelo que já passei.”

“Tenho medo de decepcionar.”

“Tenho medo de não conseguir suportar.”

"Tenho medo de me frustrar."

Aqui começa uma obra profunda, porque agora já não estamos lutando apenas contra o controle, estamos encontrando a ferida que ele talvez esteja tentando proteger.

  • Aprenda a tolerar pequenas incertezas

A flexibilização emocional não acontece de uma vez, começa em pequenas experiências. O próprio Deus permitirá algumas situações que fujam do seu controle como por exemplo:

Permitir que alguém faça algo de maneira diferente.

Não exigir uma resposta imediatamente.

Aceitar uma mudança de planejamento sem tentar reorganizar tudo naquele instante.

Não se irritar com a necessidade de mudança de horário de uma reunião.

Perceber a ansiedade surgindo e não responder automaticamente a ela.

Cada pequena experiência ensina algo novo ao coração:

“Eu não controlei tudo e, ainda assim, permaneci seguro.”

  • Observe a voz que cobra perfeição

Quando errar, observe como fala consigo mesmo. Você se corrige ou se condena?Aprende ou se pune? Existe misericórdia na maneira como você trata suas próprias limitações?

Porque algumas pessoas precisam aprender não apenas a receber a graça de Deus. Precisam aprender a não continuar se punindo por aquilo que Deus deseja restaurar.

  • Reconheça a individualidade do outro

Amar alguém não significa controlar essa pessoa. Podemos aconselhar, conversar, estabelecer limites saudáveis, expressar sentimentos. Mas precisamos reconhecer que o outro continuará sendo responsável por suas próprias escolhas.

Relacionamentos amadurecem quando substituímos manipulação por diálogo, imposição por limites saudáveis e controle por respeito.

  • Pratique o Salmo 131

Existe um momento em que análise, compreensão e palavras precisam nos conduzir a um lugar de descanso. Talvez você não consiga resolver hoje tudo aquilo que descobriu dentro de si, mas pode começar dizendo:

“Senhor, ensina minha alma a aquietar-se em Ti.”

Imagine a imagem apresentada pelo salmista. Uma criança segura no colo, ela não conhece todas as respostas, mas não precisa conhecê-las para descansar. 

Talvez Deus esteja ensinando seu coração justamente isso: segurança não é saber antecipadamente tudo o que acontecerá.

Segurança é descobrir que, quando algo inesperado acontecer, você não estará sozinho.

A verdadeira transformação não acontece quando conseguimos finalmente dominar todas as circunstâncias, acontece quando percebemos:

“Eu posso não controlar o que virá, mas posso aprender a permanecer seguro em Deus enquanto caminho.”


Senhor, mostra-nos o que existe por trás da nossa necessidade de controlar. Revela os medos, cobranças e feridas que ainda nos mantêm em alerta. Ensina nossa alma a descansar em Tua presença mesmo quando não temos todas as respostas. Que nossa segurança esteja cada vez menos no controle das circunstâncias e cada vez mais em Ti. 

Oramos em nome de Jesus, amém.


"Não precisamos controlar tudo ao nosso redor para estarmos seguros; a cura começa quando nossa alma aprende a encontrar segurança na presença de Deus."

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