Quando a angústia se transforma em oração

 


“Responde-me quando clamo, ó Deus da minha justiça; na angústia, me tens aliviado; tem misericórdia de mim e ouve a minha oração.”
Salmo 4:1


O Salmo 4 começa de uma maneira muito significativa: Davi não esconde sua angústia; ele a transforma em oração.

Ele não procura primeiro uma forma de anestesiar aquilo que sente, nem tenta demonstrar uma força que naquele momento talvez não possuísse. Sua primeira reação é clamar: “Responde-me quando clamo.”

Há algo muito profundo nessa postura. Davi reconhece a realidade de sua dor, mas não permite que a dor tenha a palavra final. A angústia torna-se o lugar de onde nasce sua oração.

A própria sensação de angústia traz consigo a ideia de aperto. É como se as circunstâncias se fechassem ao nosso redor e faltasse espaço dentro de nós. O coração fica pressionado, os pensamentos se acumulam, o futuro parece ameaçador e, muitas vezes, não conseguimos explicar exatamente o que estamos sentindo.

Entretanto, Davi faz uma declaração extraordinária: “Na angústia, me tens aliviado.”

Há aqui um contraste entre aperto e alívio.

É como se Davi estivesse dizendo: “Senhor, quando tudo ao meu redor parecia estreito, Tu criaste espaço para mim.”

Deus nem sempre remove imediatamente a situação que produz a angústia, mas Ele pode ampliar o nosso interior para que aquilo que nos aperta não nos destrua.

Essa verdade também nos leva ao Getsêmani. Pouco antes da cruz, Jesus declarou aos discípulos:

“A minha alma está profundamente triste até a morte.”
Mateus 26:38

O nome Getsêmani está ligado a uma prensa de azeite. As azeitonas eram esmagadas para que delas fosse extraído o azeite. E é justamente naquele lugar que encontramos Jesus profundamente angustiado. Cristo não negou sua emoção. Ele não fingiu que a cruz não lhe causava sofrimento e não considerou a angústia uma demonstração de falta de fé. 

Ele levou sua angústia ao PaiJesus se prostrou e orou.

Isso nos ensina algo precioso: sentir angústia não significa ausência de fé; o que fazemos com a angústia revela para onde nossa fé está nos conduzindo.

Davi orou e Jesus orou. A emoção foi transformada em oração.

Quando sentimos angústia, geralmente queremos sair dela o mais rápido possível. Procuramos uma solução, queremos uma resposta e desejamos que a sensação desapareça. Mas talvez, antes de perguntarmos: “Como faço para parar de sentir isso?” Precisemos perguntar:

“Senhor, o que está acontecendo dentro de mim?”

A angústia pode revelar medos que estavam escondidos, expectativas que colocamos no lugar errado, feridas ainda sensíveis, preocupações que tentávamos controlar ou valores que estão sendo ameaçados dentro de nós.

Existem momentos em que Deus não desperdiça nem mesmo aquilo que nos aperta. Não porque Ele tenha prazer em nosso sofrimento, mas porque até a dor pode tornar-se um lugar de encontro com Ele.

É semelhante ao processo da prensa. A pressão não cria o azeite; ela revela aquilo que já estava dentro da azeitona.

Da mesma maneira, determinadas pressões da vida revelam aquilo que está dentro do nosso coração. Sob pressão, aparecem nossos medos,  nossas dependências, nossas inseguranças. Aparecem também as áreas onde ainda precisamos aprender a confiar.

Por isso, não precisamos apenas fugir da angústia. Podemos levá-la conscientemente para a presença de Deus.

Existe uma grande diferença entre ser dominado pela angústia e apresentar nossa angústia diante de Deus.

Quando guardamos tudo dentro de nós, a angústia pode transformar nosso interior em um lugar cada vez mais estreito. Começamos a pensar continuamente sobre aquilo que nos preocupa. Criamos cenários, antecipamos perdas e tentamos controlar o futuro. E, pouco a pouco, aquilo que sentimos começa a governar aquilo que pensamos, aquilo que fazemos e até aquilo que acreditamos.

Mas Davi nos apresenta outro caminho: transformar emoção em oração.

Talvez você não consiga organizar tudo o que está sentindo. Ainda assim, pode dizer:

“Senhor, estou com medo.”

“Senhor, isso está me machucando.”

“Senhor, não sei como resolver.”

“Senhor, estou cansado.”

“Senhor, meu coração está apertado.”

Isso também é oração. Deus não exige que cheguemos diante dele com emoções perfeitamente organizadas. Podemos chegar quebrantados, confusos, cansados e até chorando.

No Getsêmani, Jesus nos mostra que espiritualidade verdadeira não significa ausência de emoção; significa levar nossas emoções para a presença do Pai.

Há momentos em que queremos que Deus retire imediatamente a prensa, enquanto Deus está produzindo algo profundo em nós dentro daquele processo.

A pressão pode nos ensinar dependência, a espera pode nos ensinar confiança, a vulnerabilidade pode nos ensinar entrega, a angústia pode nos ensinar oração. E aquilo que parecia apenas um lugar de esmagamento pode tornar-se um Getsêmani, um lugar onde nossa vontade se rende novamente à vontade de Deus.

Talvez hoje você esteja vivendo um desses momentos de aperto. Não permita que a angústia apenas o empurre para dentro de si mesmo. Deixe que ela o empurre para Deus.

Converse com Ele, nomeie aquilo que está sentindo, apresente aquilo que está ameaçando sua paz. Pergunte ao Senhor o que essa pressão está revelando em seu coração. E lembre-se: o mesmo Deus a quem Davi disse “na angústia, me tens aliviado” continua sendo capaz de criar espaço dentro de nós quando tudo ao redor parece apertado.

Talvez a circunstância ainda não tenha mudado, a resposta ainda não tenha chegado. Mas enquanto oramos, algo começa a acontecer dentro de nós. A angústia deixa de ser apenas sofrimento e torna-se matéria-prima de oração. E aquilo que nos apertava começa a nos conduzir para mais perto de Deus.

Senhor, quando nosso coração estiver apertado pela angústia, ensina-nos a correr para a Tua presença. Que não sejamos dominados pelo que sentimos, mas transformemos nossas emoções em oração. 

Revela o que precisa ser tratado dentro de nós e, mesmo quando as circunstâncias ainda não mudarem, alarga o nosso coração com Tua paz. Que cada momento de pressão nos conduza a uma confiança mais profunda em Ti. Em nome de Jesus, amém.


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