Quando eu me sinto inferior aos outros


 

“Se o pé disser: ‘Não faço parte do corpo porque não sou mão’, nem por isso deixa de fazer parte do corpo. E, se a orelha disser: ‘Não faço parte do corpo porque não sou olho’, nem por isso deixa de fazer parte do corpo.”
1 Coríntios 12:15-16


“De fato, Deus dispôs cada um dos membros no corpo segundo a sua vontade.”
1 Coríntios 12:18

Essa passagem é profundamente significativa quando pensamos em sentimento de inferioridade.

Paulo está falando sobre a diversidade de dons e funções no Corpo de Cristo, mas a imagem utilizada revela algo muito humano: a tendência de olhar para aquilo que o outro é e concluir que, por não sermos iguais a ele, temos menos importância.

A igreja de Corinto enfrentava problemas relacionados a dons, posições e reconhecimento. Alguns dons pareciam receber maior destaque que outros.

Paulo então utiliza a figura do corpo humano para corrigir essa mentalidade. O corpo possui olhos, mãos, pés, ouvidos… nenhum deles realiza exatamente a mesma função. E justamente por isso o corpo funciona.

O problema começa quando o pé olha para a mão e pensa: “Se eu não sou mão, então talvez eu nem pertença ao corpo.”

Observe: o pé não está apenas reconhecendo uma diferença. Ele está interpretando a diferença como inferioridade.

Mas Paulo responde que a diferença não anula o pertencimento. O pé continua sendo parte do corpo. A orelha continua sendo necessária.

E, mais profundamente ainda, Paulo declara “Deus dispôs cada um dos membros no corpo segundo a sua vontade.”

Isso significa que as nossas diferenças não são um erro de projeto. 

Deus não criou cópias. Ele criou um corpo.

Quando tentamos medir nosso valor usando como referência aquilo que outra pessoa recebeu, estamos utilizando uma régua que Deus nunca nos deu. Você não precisa ser mão para ter valor sendo pé. Você não precisa ser olho para justificar sua existência como ouvido.

Você não precisa possuir o dom de alguém para que o seu tenha importância.

Há momentos em que olhamos para alguém e, quase sem perceber, começamos a diminuir a nós mesmos. Vemos a beleza de alguém e nos sentimos menos bonitas. Vemos a inteligência de alguém e nos sentimos incapazes. Vemos alguém avançando e sentimos que estamos ficando para trás. Vemos dons, conquistas, relacionamentos, ministérios ou oportunidades e pensamos:

“Por que eu não sou assim?”
“Por que parece que todo mundo consegue, menos eu?”
“Talvez eu simplesmente não seja bom o suficiente.”

O sentimento de inferioridade nem sempre aparece como uma frase clara. Muitas vezes, ele se manifesta através da comparação, da necessidade de aprovação, do medo de errar, do perfeccionismo, da dificuldade de receber elogios ou até da necessidade constante de provar que somos capazes.

E, pouco a pouco, deixamos de apenas reconhecer nossas limitações e começamos a transformar essas limitações em uma definição de quem somos.

Não pensamos apenas: “Eu não consigo fazer isso.”

Passamos a pensar: “Eu sou incapaz.”

Não pensamos apenas: “Ele tem uma habilidade que eu não tenho.”

Pensamos: “Ele é melhor do que eu.”

É nesse ponto que a diferença começa a ser interpretada como desvalor. 

Perceber nossas limitações faz parte da experiência humana. O problema surge quando a percepção de uma limitação passa a determinar nossa visão de nós mesmos.

Então, algo que poderia ser: “Tenho uma dificuldade nessa área” transforma-se em: “Sou inferior.”

Talvez a pergunta que deveríamos responder para nós mesmos seria: Quem me ensinou que eu precisava ser outra pessoa para ter valor?

Talvez você tenha crescido sendo comparado:

“Olha como sua irmã faz.”

“Fulana consegue, por que você não?”

Talvez alguém tenha criticado constantemente aquilo que você fazia.

Talvez você tenha sido rejeitado.

Talvez tenha vivido humilhações.

Talvez suas conquistas nunca parecessem suficientes.

Talvez você tenha aprendido cedo que precisava se destacar para ser visto.

E uma crença pode ter se formado silenciosamente: “Para ser amado, preciso ser melhor.” Ou: “Se alguém é melhor do que eu em alguma coisa, então eu tenho menos valor”

Com o passar dos anos, talvez a voz que inicialmente veio de fora tenha se tornado uma voz interior. Hoje ninguém precisa dizer: “Você não consegue. Porque você mesmo diz.

Ninguém precisa dizer: “Você não é bom o suficiente.” Porque essa sentença já aparece dentro de você antes mesmo de tentar.

Por isso, a cura não acontece quando repetimos frases positivas. Precisamos identificar onde aprendemos a olhar para nós mesmos dessa maneira.

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  • A comparação distorce nossa identidade

Há uma diferença entre admirar alguém e transformar essa pessoa em nossa medida.

Podemos olhar para alguém e pensar: “Que dom bonito Deus colocou nele.” Sem acrescentar: “Eu gostaria de ser ele.”

A comparação se torna destrutiva quando a qualidade do outro começa a funcionar como uma acusação contra nós.

A beleza dele não significa que você seja feio.

O talento dele não significa que você seja incapaz.

A conquista de alguém não prova o seu fracasso.

O chamado de outra pessoa não cancela o seu.

A velocidade de alguém não define o seu atraso.

Paulo ensina em Gálatas 6:4: “Cada um examine os próprios atos, e então poderá orgulhar-se de si mesmo, sem se comparar com ninguém.”

Existe liberdade quando paramos de perguntar “Onde estou em relação aos outros?” e começamos a perguntar: “Estou caminhando naquilo que Deus me confiou?”

Na palavra de Deus temos o exemplo de Gideão, quando Deus o chama ele responde:

“Meu clã é o mais fraco […] e eu sou o menos importante da minha família.”
Juízes 6:15

Gideão apresenta suas credenciais de insuficiência, sua família, posição e pequenez.

Mas Deus responde: “Eu estarei com você.”

Isso é poderoso. Deus não constrói em Gideão uma autoestima baseada em grandiosidade humana. Ele não diz: “Gideão, você é maior que todos.”

A resposta é: “Eu estarei com você.”

A identidade bíblica não precisa negar nossas limitações. Ela aprende a enxergá-las à luz da presença de Deus.

Talvez você realmente não seja a pessoa mais preparada da sala. Talvez exista alguém mais experiente, mais habilidoso, mais eloquente e mais rápido.

Mas a pergunta bíblica não é: “Sou melhor que todos?”

A pergunta é: “Deus me chamou para isso?”

Porque, se Deus chamou, sua segurança não precisa estar em ser maior do que os outros. Ela pode repousar naquele que está com você.


  • Inferioridade não é humildade

Existe também um engano espiritual importante.

Às vezes pensamos que nos diminuir é uma forma de humildade. Não é.

Humildade não é dizer: “Não tenho valor.”

Humildade é reconhecer: “Tudo o que sou e tudo o que tenho procede da graça de Deus.”

Orgulho diz: “Sou melhor do que os outros.”

Inferioridade diz: “Sou pior do que os outros.”

A humildade bíblica diz: “Não preciso ser melhor nem pior. Preciso ser fiel àquilo que Deus me chamou para ser.” Isso é libertador.


  • Identifique a voz que está definindo seu valor

Quando você pensa: “Não sou suficiente”, pergunte: De onde aprendi isso?

Nem toda voz interior representa a verdade. Algumas são ecos de experiências antigas.

Troque: “Eu sou incapaz.” por: “Tenho dificuldade nessa área.”

Troque: “Sou um fracasso.” por: “Eu fracassei nessa situação.”

Uma experiência não precisa se transformar em sua identidade.


  • Pare de transformar o outro em sua régua

Deus não perguntará por que você não foi outra pessoa. Ele deseja que você seja fiel àquilo que colocou em suas mãos.

1 Coríntios 12 nos ensina: o pé não precisa competir com a mão. Ele precisa simplesmente ocupar seu lugar no corpo.

Seu valor não começa em suas conquistas. Você é criatura feita à imagem de Deus. Em Cristo, você é alcançado pela graça. Você pertence ao corpo recebeu dons e propósito.

Antes de fazer alguma coisa para Deus, existe uma identidade recebida dele.


  • Aprenda a celebrar o outro sem diminuir a si mesmo

Essa talvez seja uma das maiores evidências de cura. Você consegue olhar para alguém brilhando e dizer: “Que bonito aquilo que Deus colocou nela.”

Sem que a próxima frase seja: “Eu nunca serei assim.”

Porque aquilo que Deus fez no outro não é uma declaração contra você. Existe espaço no Reino para ambos.

Senhor, cura em nós as marcas que nos fizeram acreditar que somos menores ou menos importantes que os outros. Mostra-nos as mentiras que aprendemos sobre nós mesmos e ensina-nos a enxergar nossa identidade a partir da tua verdade. Livra-nos da comparação e ajuda-nos a receber com gratidão o lugar, os dons e o propósito que nos deste. Que nossa segurança esteja em tua presença e não na aprovação das pessoas. Em nome de Jesus, amém.

“Eu não preciso ser como o outro para ter valor; Deus não me chamou para ocupar o lugar de alguém, mas para viver com fidelidade aquilo que Ele colocou em mim.”


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