Quando a insegurança assume o controle
Quando Deus encontrou Gideão, Israel estava vivendo um período profundamente difícil.
Durante anos, os midianitas saqueavam suas plantações e destruíam aquilo que o povo produzia. O medo havia se tornado parte da rotina.
Quando o anjo do Senhor apareceu a Gideão, ele estava malhando trigo escondido em um lagar, tentando proteger o pouco que possuía.
Então Deus o chama de: “Guerreiro valente.”
Mas Gideão não conseguia se enxergar dessa maneira. A resposta dele revela a maneira como ele havia aprendido a olhar para si mesmo:
“Meu clã é o mais fraco.”
“Eu sou o menor.”
Deus fala sobre aquilo que faria através dele. Gideão responde falando sobre suas limitações. Deus apresenta uma missão. Gideão apresenta seu currículo de insuficiências.
Há algo profundamente significativo nessa passagem.
Deus não começa tentando convencer Gideão de que ele era extraordinário. Também não responde:
“Não, Gideão, você está enganado. Você é poderoso.”
A resposta de Deus é muito mais profunda: “Eu estarei com você.”
A segurança de Gideão não precisaria nascer de uma autoestima inflada. Ela nasceria da presença de Deus. Esse detalhe muda completamente a compreensão bíblica sobre segurança.
A Palavra de Deus não nos ensina a substituir:
“Eu não consigo” por “Eu consigo tudo sozinho.”
Ela nos conduz de: “Eu não consigo” para: “Deus está comigo.”
Essa é uma diferença essencial. A segurança bíblica não é autossuficiência é confiança.
Gideão realmente possuía limitações. Seu povo realmente estava oprimido. A situação realmente era difícil. Deus não negou nenhuma dessas realidades.
Mas Deus também não permitiu que as limitações de Gideão determinassem aquilo que seria possível realizar através dele.
Por isso, quando Gideão diz: “Eu sou o menor”,
Deus responde, em essência: “Você não fará isso sozinho.”
A questão nunca foi apenas quem Gideão era e sim quem estaria com Gideão.
A insegurança nem sempre aparece dizendo claramente: “Eu não acredito em mim.”
Às vezes, ela se apresenta de formas mais discretas. Ela aparece quando precisamos perguntar várias vezes se fizemos certo. Quando uma crítica permanece em nossa mente durante dias, enquanto dez elogios são rapidamente esquecidos. Quando nos comparamos e sempre encontramos no outro alguma coisa que parece provar que somos menores, menos capazes ou menos importantes.
A insegurança também pode aparecer no perfeccionismo, na dificuldade de dizer “não”, no medo de decepcionar, na necessidade de agradar, na hesitação diante das decisões ou no desejo constante de saber o que os outros estão pensando sobre nós.
E, pouco a pouco, aquilo que deveria ser apenas uma dúvida ocasional começa a dirigir escolhas importantes.
Não fazemos mais aquilo que desejamos ou entendemos que devemos fazer. Fazemos aquilo que imaginamos que diminuirá a possibilidade de rejeição.
Então a pergunta deixa de ser: “O que é verdadeiro?” e passa a ser: “O que preciso fazer para ser compreendido e aceito?”
Deixa de ser: “Deus me chamou para isso? E passa a ser: “E se eu não conseguir?”
Deixa de ser: “Quem Deus diz que eu sou? E passa a ser: “O que as pessoas estão pensando sobre mim?”
É nesse momento que a insegurança começa a assumir o controle.
A insegurança muitas vezes, não está relacionada simplesmente à ausência de capacidade, mas à dificuldade de sustentar internamente a percepção do próprio valor.
Algumas pessoas conseguem reconhecer racionalmente: “Eu sei que sou capaz.”
Mas emocionalmente continuam precisando ouvir:
“Você acha que eu consigo?”
“Você gostou?”
“Está bom assim?”
“Você está chateado comigo?”
“Será que fiz alguma coisa errada?”
A confirmação externa produz alívio, mas geralmente é um alívio temporário. Porque amanhã será necessário receber outra confirmação, e depois outra, e outra…
Em algumas histórias, essa insegurança pode ter sido construída em ambientes nos quais o amor parecia condicionado ao desempenho.
Talvez você tenha aprendido:
“Quando acerto, sou elogiado.”
“Quando erro, decepciono.”
Talvez tenha convivido com críticas constantes ou tenha sido comparado o tempo todo.
Talvez tenha ouvido frases que diminuíram sua capacidade.
Talvez tenha aprendido muito cedo a perceber o humor das pessoas para saber como deveria se comportar.
Talvez tenha se tornado extremamente responsável, cuidadoso, prestativo ou perfeccionista.
Não porque essas características sejam necessariamente ruins. Mas porque, em algum momento, elas podem ter se transformado em uma forma de garantir aceitação.
Então nasce uma lógica silenciosa:
“Se eu fizer tudo certo, ninguém poderá me rejeitar.”
Ou: “Se eu for necessária, não vão me abandonar.”
Ou: “Se todos gostarem de mim, significa que tenho valor.”
O problema é que viver assim é exaustivo, porque sempre haverá alguém que não concordará conosco.
Sempre haverá alguma decisão que poderá ser questionada.
Sempre haverá pessoas melhores do que nós em determinadas áreas.
Sempre haverá erros.
E, quando nossa identidade depende dessas coisas, qualquer crítica começa a parecer uma ameaça àquilo que somos.
- Quando a crítica desperta algo maior
Você já percebeu como algumas palavras possuem um peso desproporcional?
Uma pessoa faz uma observação relativamente simples e, horas depois, você continua pensando nela.
“Será que fui incompetente?”
“Será que estão decepcionados comigo?”
“Será que não gostam mais de mim?”
Talvez o comentário tenha acontecido hoje. Mas a dor que ele tocou pode ser muito mais antiga.
Em alguns casos, o presente apenas encosta em uma ferida que já existia.
A insegurança então interpreta qualquer correção como rejeição.
Qualquer distância como abandono.
Qualquer erro como fracasso.
Qualquer pessoa talentosa como ameaça.
É por isso que a cura não acontece simplesmente repetindo: “Preciso ter mais confiança.”
É necessário perguntar: Por que preciso tanto da aprovação das pessoas?
O que acredito que acontecerá se alguém não gostar de mim?
Por que errar ameaça tanto a imagem que tenho de mim?
Quando comecei a acreditar que precisava provar meu valor?
Quais vozes do passado ainda continuam falando dentro de mim?
- A insegurança também se alimenta da comparação
Gideão olhava para sua família, para sua tribo e para sua posição.
“Somos os menores.”
“Sou o menor deles.”
A comparação cria uma espécie de régua permanente. Olho para alguém e penso:
“Ele fala melhor.”
“Ele é mais bonito.”
“Ele tem mais conhecimento.”
“Ele é mais reconhecido.”
“Ele consegue fazer aquilo que eu não consigo.”
Mas perceba o engano, porque reconhecer a qualidade de alguém é saudável. O problema começa quando transformamos a qualidade do outro em prova da nossa inferioridade.
O brilho de outra pessoa não apaga aquilo que Deus colocou em você.
Não precisamos diminuir ninguém para reconhecer nosso valor. E também não precisamos diminuir a nós mesmos para reconhecer o valor de alguém.
Paulo escreve:
Efésios 2:10
Sua identidade não nasceu da comparação. Nasceu do Criador.
- Identifique a voz da insegurança
Aprenda a reconhecer quando ela começa a interpretar a realidade.
“Todos estão me julgando.”
“Não vou conseguir.”
“Sou inferior.”
“Preciso agradar.”
“Não posso errar.”
“Eu sou burro.”
“Não sei fazer nada certo.”
Pergunte para você mesmo: Isso é um fato ou uma interpretação produzida pelo meu medo?
- Descubra de onde vêm as exigências que você carrega
Talvez algumas regras internas precisem ser questionadas: “Preciso agradar todo mundo.”
Quem disse? “Não posso decepcionar ninguém.”
É realmente possível?
“Se eu errar, significa que sou incapaz.”
Um erro determina quem você é?
“Se alguém me rejeitar, significa que não tenho valor.”
Desde quando outra pessoa recebeu autoridade para determinar seu valor?
A cura começa quando começamos a separar verdades de Deus das conclusões que construímos a partir de nossas feridas.
- Permita-se ser humano
Você não precisa ser perfeito para ser amado, não precisa acertar sempre, não precisa saber tudo e não precisa ser o melhor.
Paulo aprendeu uma das verdades mais contraculturais do evangelho:
2 Coríntios 12:9
Há uma liberdade enorme quando percebemos que nossa fraqueza não cancela nossa utilidade no Reino de Deus. Deus trabalha através de pessoas dependentes dele.
- Pare de entregar às pessoas o poder de definir quem você é
Não significa ignorar conselhos ou rejeitar correções. Maturidade também envolve ouvir.
Mas existe diferença entre receber uma opinião e entregar nossa identidade a ela.
Uma pessoa pode não gostar daquilo que você fez. Isso não significa que você perdeu seu valor.
Alguém pode não reconhecer aquilo que você carrega. Isso não significa que Deus deixou de reconhecer.
Paulo escreveu:
1 Coríntios 4:3-4
Isso não é arrogância é liberdade de quem tem a sua vida dirigida por Cristo.
- Construa sua segurança na presença de Deus
Quando Gideão apresentou sua insegurança, Deus não lhe ofereceu uma lista de elogios.
Disse: “Eu estarei com você.”
Talvez essa seja a verdade que nossa alma precisa aprender novamente. Não é: “Eu nunca terei medo.” É: “Mesmo com medo, Deus estará comigo.”
Não é: “Eu nunca vou falhar.” É: “Meu valor não desaparecerá quando eu falhar.”
Não é: “Todos irão me aprovar.” É: “Mesmo quando alguém não me aprovar, continuo pertencendo a Deus.”
Não é: “Sou suficiente sozinho.” É: “A graça de Deus é suficiente para mim.”
Quanto mais nossa identidade encontra repouso no amor de Deus, menos precisamos correr desesperadamente atrás da aprovação humana.
Senhor, mostra-nos onde a insegurança tem dirigido nossas escolhas. Cura as feridas que nos fizeram acreditar que precisamos provar nosso valor ou conquistar aceitação.
Ensina-nos a enxergar quem somos a partir da tua verdade e não do medo, da comparação ou da opinião das pessoas. Que nossa segurança esteja firmada na certeza de que Tu estás conosco. Em nome de Jesus, amém.
“A insegurança perde o controle quando deixamos de procurar no olhar das pessoas a afirmação que já recebemos no olhar de Deus.”



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