Quando o medo de errar não me deixa descansar



“Senhor, tu me examinas e me conheces. Sabes quando me sento e quando me levanto; de longe conheces os meus pensamentos.”

Salmo 139:1-2


“Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável.”
Salmo 139:13-14


Esses textos nos conduzem a uma verdade essencial: Deus nos conhece completamente antes que consigamos provar qualquer coisa a Ele.

Davi diz: “Tu me examinas e me conheces.” Deus conhece pensamentos que ninguém conhece, conhece motivações, limitações, medos e fraquezas. Conhece aquilo que fazemos bem e aquilo em que ainda estamos amadurecendo.

E, mesmo assim, Davi não descreve esse conhecimento como uma ameaça. Ele o transforma em adoração.

Isso é muito importante, porque, para alguém que vive com medo de errar, ser completamente conhecido pode parecer assustadorSe nossa experiência de vida nos ensinou que erro produz humilhação, punição, afastamento ou rejeição, podemos começar a imaginar Deus da mesma maneira. Passamos a nos relacionar com Ele tentando acertar o tempo todo.

Oramos corretamente, servimos corretamente, tentamos sentir corretamente. E quando falhamos, surge a sensação de que Deus está profundamente decepcionado conosco. Mas o evangelho nos mostra algo diferente. Deus não descobriu nossas limitações depois que nos chamou. Ele já as conhecia.

Quando Jesus chamou Pedro, sabia que Pedro o negaria. Quando chamou os discípulos, sabia que eles teriam dúvidas, disputariam posições e ainda precisariam amadurecer.

Quando Deus chamou Moisés, sabia de suas inseguranças.

Quando chamou Jeremias, já conhecia seus medos.

Deus nunca chamou alguém pensando que aquela pessoa seria impecável.

Ele chama pessoas reais e trabalha nelas durante o caminho.

Por isso Romanos 8:1 declara:

“Agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus.”

Isso não significa que nossos erros não tenham consequências ou que não precisemos reconhecer pecados e corrigir atitudes. Significa que correção não é o mesmo que condenação.

A correção de Deus diz: “Isso precisa mudar; venha, Eu vou trabalhar em você.”

A condenação diz: “Você errou porque não presta.”

Uma conduz ao arrependimento e ao crescimento. A outra produz vergonha, medo e paralisia.

 Há pessoas que não têm medo apenas de cometer um erro. Elas têm medo do que o erro poderá significar sobre quem elas são.

Por isso pensam demais antes de decidir, revisam inúmeras vezes aquilo que fizeram, antecipam auto críticas, têm dificuldade de delegar, sentem culpa quando não conseguem atingir determinado padrão e, mesmo depois de realizarem algo bem, continuam se cobrando e procurando aquilo que poderia ter sido melhor.

Às vezes, o perfeccionismo parece excelência. Mas são coisas diferentes. A excelência procura fazer o melhor possível dentro dos limites humanos.

O perfeccionismo diz: “Só posso descansar quando tudo estiver certo.” E como nunca conseguimos controlar todas as variáveis da vida, o descanso nunca chega.

Por trás do medo de errar podem existir perguntas mais profundas:

“E se eu decepcionar alguém?”

“E se perceberem que não sou tão capaz quanto imaginam?”

“E se eu for criticado?”

“E se deixarem de me amar quando eu falhar?”

“E se meu erro provar que eu não sou bom o suficiente?”

Então, talvez o problema não seja apenas medo do erro. Talvez seja medo da rejeição, da vergonha, da desaprovação ou da perda de valor.

E quando nosso valor começa a depender daquilo que conseguimos fazer perfeitamente, a alma entra em uma corrida que nunca termina.


  • Talvez você tenha aprendido muito cedo que errar era perigoso

Algumas pessoas cresceram em ambientes nos quais pequenos erros recebiam reações muito maiores do que deveriam. Uma nota baixa podia gerar humilhação. Derrubar alguma coisa podia provocar gritos. Fazer uma tarefa de maneira diferente podia trazer críticas. Ser comparado com irmãos ou colegas podia transmitir a mensagem: “Você deveria ser melhor.”

A criança começa então a perceber: “Quando acerto, sou aceita. Quando erro, alguma coisa ruim acontece.” E pode desenvolver uma estratégia: “Então preciso evitar erros.”

Essa estratégia talvez tenha ajudado aquela criança a se proteger naquele ambiente. Mas, anos depois, ela pode continuar funcionando mesmo quando o ambiente mudou.

O chefe manda uma mensagem: o coração dispara.

Alguém responde de maneira diferente: imediatamente pensamos que fizemos algo errado.

Precisamos apresentar um trabalho: revisamos incontáveis vezes.

Recebemos uma crítica: pensamos nela durante dias.

Cometemos um erro pequeno: nossa mente transforma aquilo em uma sentença sobre nossa identidade.

É importante perceber: Nem sempre estamos reagindo apenas ao que está acontecendo agora. Às vezes estamos reagindo também ao significado que experiências anteriores ensinaram nosso coração a atribuir ao erro.


  • Quando desempenho se transforma em identidade

Existe uma diferença enorme entre: “Eu fiz algo errado.” “Eu sou um erro.”

A primeira frase reconhece uma atitude a segunda ataca a identidade.

O perfeccionismo frequentemente mistura as duas coisas, por isso uma falha pequena pode produzir sofrimento tão grande. Não é simplesmente: “Meu trabalho teve uma falha.” Mas a pessoa passa a se culpar severamente:

“Se meu trabalho teve uma falha, talvez eu não seja competente.” 

“Se alguém me corrigiu, talvez não goste de mim.”

“Se não consegui, talvez eu tenha fracassado como pessoa.”

Mas nossa identidade não pode ser construída sobre desempenho, porque desempenho varia. Existem dias em que acertamos e existem dias em que falhamos. Dias em que somos fortes e dias em que precisamos de ajuda.

Se nossa identidade estiver fundamentada no desempenho, nosso senso de valor estará sempre oscilando.,Mas em Cristo existe um fundamento mais profundo: antes de qualquer desempenho, existe pertencimento.


  • O perfeccionismo também pode produzir procrastinação

Isso parece contraditório. “Se alguém é perfeccionista, deveria produzir muito.”

Nem sempre, algumas pessoas adiam justamente porque têm medo de não conseguir fazer perfeitamente e digo isso também por experiência própria, quantos projetos e quantas idéias deixei de completar por achar que não ficaram perfeitas.

Um pensamento comum é:

“Quando eu tiver mais tempo, começo.”

“Quando estiver mais preparado, faço.”

“Quando tiver certeza de que ficará ótimo, publico.”

“Quando souber exatamente o que dizer, converso.”

E assim o perfeccionismo, que parecia motivar excelência, começa a paralisar. Porque o padrão interno não diz: “Faça o melhor que consegue.”

Ele diz: “Não faça enquanto não tiver certeza de que não haverá falha.”

Mas crescimento exige espaço para aprender e aprender implica reconhecer que: "ainda não sei tudo."

  • Uma história bíblica que nos ajuda a compreender isso — Pedro

Pedro talvez seja um dos exemplos mais bonitos de como Deus trabalha com pessoas imperfeitas. Ele prometeu: “Mesmo que todos o abandonem, eu jamais o abandonarei.” Pouco depois, negou Jesus três vezes, imagine o peso daquela falha. Pedro não errou em uma tarefa pequena, ele falhou justamente naquilo que havia afirmado que jamais faria.

Depois da ressurreição, Jesus encontra Pedro em João 21, é significativo observar o que Cristo faz. Jesus não diz: “Pedro, você estragou tudo. Não posso mais confiar em você.” Ele também não finge que nada aconteceu, Jesus toca justamente naquele lugar. Três vezes pergunta: “Você me ama?”

E três vezes Pedro responde. Então Jesus reafirma seu chamado: “Cuide das minhas ovelhas.”

Que cena poderosa, Pedro descobriu algo que todo perfeccionista precisa aprender: um fracasso não precisa ser o fim da nossa história.

Jesus não reduziu Pedro à sua pior noite, Ele restaurou Pedro.

O mesmo homem que negou Jesus tornou-se uma das principais testemunhas da igreja primitiva. Isso não aconteceu porque Pedro nunca mais cometeu erros. Aconteceu porque sua vida deixou de estar fundamentada na confiança em sua própria força e passou a depender cada vez mais da graça.

Talvez seja importante levarmos algumas perguntas à presença de Deus:

Quando eu erro, qual é a primeira coisa que penso sobre mim?

De quem eu tenho mais medo de receber desaprovação?

Na minha história, como as pessoas reagiam quando eu cometia erros?

Eu consigo receber uma correção sem interpretar isso como rejeição?

Preciso fazer tudo perfeitamente para sentir que tenho valor?

E talvez exista uma pergunta ainda mais profunda: Quem eu acredito que Deus é quando eu falho? Um Pai que imediatamente me rejeita? Um juiz esperando meu próximo erro? Ou um Pai santo que me corrige, transforma e continua trabalhando em mim?

A resposta a essa pergunta influencia profundamente nossa capacidade de descansar.


  • Separe seu erro da sua identidade

Quando errar, pratique uma linguagem diferente.

Em vez de: “Eu sou um fracasso.”

Diga: “Eu cometi um erro e posso aprender com ele.”

Existe responsabilidade nessa frase, mas não condenação.


  • Descubra qual medo está escondido atrás do perfeccionismo

Quando perceber uma cobrança excessiva, pergunte: “O que estou tentando evitar?”

Talvez seja crítica, vergonha, rejeição, desaprovação, perda de controle, fracasso. Nomear o medo nos ajuda a levá-lo conscientemente à presença de Deus.


  • Aprenda a receber correção sem transformar correção em rejeição

Ser corrigido não significa necessariamente ser rejeitado. Provérbios apresenta repetidamente a correção como parte do caminho da sabedoria.

Quem amadurece não é quem nunca precisa ser corrigido é quem consegue ser ensinado.


  • Troque perfeição por fidelidade

Talvez uma pergunta mais saudável não seja: “Ficou perfeito?”

Mas: “Fui fiel com aquilo que Deus colocou em minhas mãos?”

Fidelidade permite crescimento e perfeccionismo exige uma versão de nós mesmos que ainda não existe.


  • Aprenda a descansar antes de terminar tudo

Esse é um exercício importante. Quem vive orientado pelo perfeccionismo pensa: “Quando eu terminar tudo, descanso.”

Mas sempre haverá alguma coisa para fazer, descanso também precisa ser uma decisão.

Somos criaturas, não o Criador e temos limites. Precisamos dormir, precisamos interromper tarefas e admitir: “Por hoje, é suficiente.” Isso também é humildade.


  • Permita que a graça entre justamente no lugar da insuficiência

Paulo ouviu do Senhor: “Minha graça é tudo de que você precisa. Meu poder opera melhor na fraqueza.”2 Coríntios 12:9

Deus não está esperando que você elimine todas as suas limitações para então poder usá-lo. A graça de Deus não começa quando sua capacidade termina. Ela já estava sustentando você durante todo o caminho.

Talvez você tenha passado muito tempo tentando provar que é suficiente e Deus esteja lhe ensinando algo diferente:

Você não precisa ser perfeito para ser amado, nem impecável para continuar sendo transformado.

Senhor, mostra-nos onde o medo de errar tem governado nossas escolhas e roubado nosso descanso. Cura em nós a necessidade de provar nosso valor e ensina-nos a receber nossa identidade em Ti. Dá-nos humildade para reconhecer nossos erros, coragem para aprender com eles e segurança para continuar caminhando debaixo da Tua graça. Amém.


"Quando meu valor deixa de depender dos meus acertos, o erro deixa de ser uma sentença e pode se tornar parte do meu crescimento."

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