Quando viver em alerta se torna um modo de vida


 

“Não dormitará aquele que te guarda. É certo que não dormita, nem dorme o guarda de Israel.”
Salmo 121:3-4

O Salmo 121 pertence ao grupo dos Cânticos de Peregrinação, entoados pelo povo que subia em direção a Jerusalém. O salmista olha para os montes e pergunta: “De onde me virá o socorro?”

E imediatamente responde: “O meu socorro vem do Senhor.”

O centro do salmo não está na capacidade humana de prever os perigos, mas no caráter de Deus como Guardador de Israel.

A palavra “guardar” atravessa o salmo repetidamente.

Deus guarda a caminhada.

Deus guarda a vida.

Deus guarda a saída.

Deus guarda a entrada.

Deus guarda agora e continuará guardando.

E então surge uma afirmação extraordinária: O Guarda de Israel não dorme.

Isso significa que a segurança do povo de Deus não depende de sua própria vigilância permanente. O salmista pode dormir porque existe Alguém que permanece acordado.

É exatamente aqui que essa Palavra encontra aqueles que aprenderam a viver como sentinelas da própria existência.

Talvez, em algum momento da vida, você tenha desenvolvido a sensação de que:

“Se eu não prestar atenção, alguma coisa vai acontecer.”

“Se eu não perceber os sinais, vou ser pego de surpresa.”

“Se eu não cuidar de tudo, ninguém cuidará.”

Mas o Salmo 121 nos apresenta uma verdade que confronta essa responsabilidade excessiva: Existe um Guarda que não é você.

Isso não significa viver irresponsavelmente nem ignorar riscos reais. Significa reconhecer que você não foi criado para carregar a responsabilidade de prever todos os acontecimentos, controlar todas as circunstâncias e impedir sozinho tudo aquilo que possa lhe causar sofrimento. 

Há uma vigilância que pertence a Deus.

Existem pessoas que não conseguem simplesmente descansarMesmo quando aparentemente está tudo bem, alguma parte delas continua atenta.

Um silêncio diferente desperta preocupação. Uma mudança no tom de voz imediatamente chama atenção. Uma mensagem que demora para ser respondida gera pensamentos. Um barulho inesperado provoca um susto desproporcional. Antes de dormir, a mente continua revisando situações, imaginando possibilidades e tentando prever o que poderá acontecer.

Às vezes, a pessoa entra em um ambiente e, antes mesmo de perceber como ela própria está se sentindo, já observou como todos os outros estão.

“Ele está diferente.”
“Será que fiz alguma coisa?”
“Por que ela falou comigo desse jeito?”
“Será que vai acontecer alguma coisa?”

Talvez a pergunta mais importante, portanto, não seja apenas: “Por que eu não consigo relaxar?”

Talvez seja: “Quando foi que eu aprendi que não podia baixar a guarda?”

  • Quando estar atento foi uma forma de sobreviver

Algumas defesas emocionais não surgem sem uma história.

Às vezes, aquilo que hoje produz sofrimento foi, em determinado momento, uma tentativa de proteção. Por exemplo quando ser surpreendido trouxe sofrimento, a pessoa pode passar a acreditar que precisa estar permanentemente preparada para nunca mais ser surpreendida.

Ela começa a observar tudo, prever tudo, interpretar tudo e imaginar possibilidades. Não necessariamente porque gosta de controlar, mas porque alguma parte dela acredita:

“Se eu perceber antes, talvez eu consiga me proteger.”

O problema é que uma defesa criada para enfrentar uma situação específica pode continuar funcionando mesmo depois que aquela situação terminou. O perigo passou, mas o alerta permaneceu.

  • Elias — quando Deus encontra alguém exausto

Existe uma cena bíblica que conversa profundamente com esse assunto.

Em 1 Reis 19, Elias havia acabado de atravessar um confronto intenso no monte Carmelo. Então recebe uma ameaça de Jezabel e foge. Chega ao deserto emocionalmente esgotado e pede para morrer. Observe, entretanto, como Deus começa a cuidar dele. Deus não inicia com uma repreensão, primeiro Elias dorme, depois recebe alimento, água, volta a descansar e é alimentado novamente. Somente depois segue sua caminhada até Horebe.

Há uma delicadeza impressionante nisso. Deus não olha para um homem exausto e diz simplesmente: “Você deveria ter mais fé.”

Ele cuida de Elias em sua integralidade: corpo, emoções e espiritualidade. O profeta que havia atravessado tanto barulho encontra Deus na suavidade.

Talvez algumas pessoas estejam tão acostumadas ao barulho do perigo que precisam reaprender que a presença de Deus também pode ser experimentada no lugar do descanso.

  • O perigo terminou, mas alguma parte de mim ainda não percebeu

Essa talvez seja uma das questões mais importantes desta reflexão. Pode existir uma distância entre aquilo que racionalmente sabemos e aquilo que emocionalmente sentimos.

A mente diz: “Agora está tudo bem.”

Mas o corpo continua preparado para alguma coisa ruim.

A razão diz: “Essa pessoa não é aquela pessoa do passado.”

Mas um tom de voz desperta a mesma sensação.

A situação é diferente. O ambiente é diferente. As pessoas são diferentes. Mas alguma coisa dentro de nós reage como se a história estivesse acontecendo novamente.

É nesse lugar que a cura precisa alcançar não somente nossos pensamentos, mas também nossas memórias, crenças e formas de reagir.

Talvez você precise aprender lentamente:

Nem todo silêncio significa abandono.

Nem toda demora significa rejeição.

Nem toda mudança de expressão significa que você fez algo errado.

Nem toda discordância terminará em ruptura.

Nem toda incerteza anuncia uma tragédia.

Nem toda situação precisa ser prevista para que você esteja seguro.

E, principalmente: você não precisa mais viver como sentinela de tudo e de todos.

O caminho de mudança e transformação não começa forçando a si mesmo a “relaxar”. Talvez seu estado de alerta tenha sido construído durante anos. Por isso, trate sua história com verdade e paciência. 

Quando perceber que seu estado de alerta aumentou, pergunte: O que aconteceu imediatamente antes? Foi uma palavra? Um silêncio? Uma notificação? Uma expressão?Uma crítica? Uma situação imprevisível? A sensação de perder o controle?

Identificar um gatilho não significa justificar todas as nossas reações. Significa compreender melhor o que está sendo ativado dentro de nós.

  • Diferencie passado e presente

Pergunte a si mesmo: “Existe perigo real neste momento ou meu interior está antecipando a repetição de alguma experiência?”

Essa pergunta pode ajudar a devolver ao presente aquilo que pertence ao presente.

Quando notar que está em alerta, pare por alguns momentos e respire lentamente e lembre-se: “Deus está cuidando de mim.”

  • Aprenda relações seguras

Algumas feridas surgiram em relacionamentos. E muitas experiências restauradoras também acontecem em relacionamentos seguros. Aprender a falar, a pedir ajuda, estabelecer limites, expressar sentimentos. Descobrir que uma discordância não significa abandono. Experimentar pessoas que respeitam seus limites.

Tudo isso pode ajudar a reconstruir aquilo que um dia foi ferido.

  • Entregue a vigilância a Deus

Chegamos novamente ao Salmo 121, talvez durante muito tempo seu coração tenha pensado “Preciso permanecer acordado.”

Mas Deus diz: “Eu sou aquele que te guarda.”

Há uma diferença entre prudência e hipervigilância. Prudência reconhece riscos reais e age adequadamente. Hipervigilância pode fazer com que o interior continue esperando perigo mesmo quando ele não está presente.

A cura não significa tornar-se vulnerável a situações realmente perigosas.

Baixar a guarda não significa ignorar sinais reais de abuso, violência ou ameaça.

Significa aprender a não tratar todo ambiente como se ainda fosse aquele ambiente do passado.

  • Para olhar para dentro

Reserve um momento diante de Deus e reflita:

Quando foi que eu aprendi que precisava estar sempre atento para me sentir seguro?

O que eu acredito que poderá acontecer se eu simplesmente baixar a guarda?

Existem situações do presente que despertam em mim reações muito maiores porque se parecem com experiências que vivi anteriormente?

Tenho dificuldade de perceber meus próprios sentimentos porque estou constantemente tentando perceber os sentimentos dos outros?

O perigo que meu coração espera realmente existe hoje ou alguma parte de mim ainda está tentando impedir que o ontem aconteça novamente?

Não responda essas perguntas com pressa.

Talvez algumas respostas precisem ser construídas aos poucos, em oração e, quando necessário, com acompanhamento pastoral e profissional.

Que a paz de Deus te Conduza a um caminho de confiança, segurança e paz.

“Em paz me deito e logo adormeço, pois só tu, Senhor, me fazes viver em segurança.”

Salmo 4:8

Senhor, Tu conheces nossa história e sabes por que aprendemos a permanecer em alerta. Mostra-nos aquilo que ainda precisa ser curado e ensina-nos a reconhecer quando o perigo passou. Ajuda-nos a entregar a Ti a necessidade de vigiar tudo e a descansar na certeza de que Tu és o nosso Guarda. Em Jesus, amém.


“Você não precisa passar a vida inteira de sentinela; enquanto aprende a descansar, Deus continua sendo Aquele que te guarda.”

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